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O Gatilho

O Gatilho
Ele a encontrou pela primeira vez numa sexta feira à noite. E apesar do vestido florido e na altura do joelho, do rosto lindo e dos sapatos de salto rosa de cetim, que mais tarde ele veria que eram muito grandes para o tamanho dela, o que o chamou a atenção foi a graça desastrada com que andava naquela calçada escura. Provavelmente porque usava sapatos muito grandes, ou porque ela não tinha muita habilidade com eles. Não vem ao caso.

Em seguida, o que o chamou a atenção, e provavelmente foi isso que o fez se apaixonar, tenha sido a coragem com que ela veio por aquela calçada escura e entrou em seu carro, com um sorriso nervoso no rosto. Ele estava apavorado. Ela, aparentemente nervosa, mas não por qualquer mal que ele pudesse causar, mas porque ela ansiava por aquele encontro já havia algumas semanas. As circunstâncias pelas quais eles se conheceram não são importantes. Também não vem ao caso.

O que realmente importa foi a sensação que ele teve ao encontrar com ela. Era a calma antes da tempestade. Um amortecimento dos sentidos que a vida já o tinha ensinado ser o prenúncio de dor de cabeça. Mais precisamente, a iminência de um novo amor.

Eles se beijaram na boca, meio por acidente. Não, não foi por acidente. Ele procurou os lábios dela. Em seguida, saíram. O trânsito nesse dia estava sensivelmente pior do que o normal, mesmo para uma sexta-feira, o que normalmente significa Ponte Rio-Niterói engarrafada com suas naturais consequências.

Eles conversaram por pelo menos uma hora até chegarem ao hotel que ela havia escolhido. Aparentemente, era uma região que conhecia bem. Esse hotel ficava em uma rua escura e estreita, exatamente como devem ser as ruas onde ficam os hotéis em que esses encontros íntimos acontecem. Ele decidiu escolher um quarto um pouco mais caro, tanto pela segurança que queria que ela sentisse quanto pelo orgulho de poder pagar por um quarto um pouco mais caro.

Nesse momento, ela estava bem mais nervosa. Sua excitação era visível e já havia sido comprovada por exames táteis os mais diversos. Ele já estava mais calmo e passou a apreciar o evento. Uma música do Peter Gabriel, que havia ouvido na rádio aquele dia girava como um carrossel na sua cabeça, lento e sem vertigem. Eles subiram as escadas, a porta do quarto estava aberta, eles entraram e acenderam as luzes. Era um quarto razoavelmente decorado e razoavelmente limpo. Nada espetacular, mas basicamente honesto.

O sexo foi bom. Tão bom quanto pode ser a primeira vez de um casal que se conhece há pouco tempo. Alguns descompassos, alguns desacertos, e muita vontade. A conversa é que foi boa, com riso e uma visível cumplicidade potencial que poderia virar uma amizade. Mas ambos tinham seus cônjuges para quem voltar. Aquilo era só um encontro casual. Nada sério, nada permanente.

Ao levá-la ao seu destino, ele comentou o que sabia ser inevitável, mas que não cabia nem poderia. Disse que seu medo era se apaixonar por ela. Ela olhou-o com aqueles olhinhos de menina de 18 anos, com um pouco de receio e um pouco de compaixão, e disse que sentia o mesmo. E assim foi. Nunca mais se viram. Conversaram algumas vezes e cada um pegou seu caminho.

Ele a carregou, grávido. Era como uma cócega. Fazia muito tempo que não sentia aquele tipo de amor adolescente. Tanto tempo, que a dor de não a ter com ele o fazia rir. Não era de forma alguma um incômodo. Divertia-o. Além de tudo, pensava nas inúmeras mulheres as quais ele tinha feito sentir aquela mesma dor, imaginando que de alguma forma, dentro do inconsciente coletivo humano, todas elas sentiam-se vingadas pelo que aquela menininha tinha feito. E isso também o acalmava. A inevitabilidade do karma era uma certeza reconfortante.

Ele se lembrou dela por mais algum tempo. Pelo menos por mais tempo do que ela se lembrou dele. É do feitio dos velhos remoer sobre aquilo que os mais jovens não tem paciência para pensar. A vida tende a desaceleração e é bom que seja assim. Mas ele mesmo acabou por esquecê-la. Por um período a amou e sofreu um pouco. E por isso lhe seria eternamente grato.

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